
Depois da chegada: o que uma pessoa precisa para construir uma nova vida no Brasil?
Dados oficiais mostram a dimensão das respostas humanitárias brasileiras, mas a integração também depende de moradia, trabalho, educação e participação nas comunidades locais.
Um relato que representa muitas trajetórias
“Quando cheguei ao Brasil, pensei que receber os documentos resolveria a maior parte das dificuldades. Eles foram importantes, mas ainda precisei aprender português, entender como funcionavam os serviços públicos, procurar uma casa e encontrar trabalho. Eu tinha experiência profissional, mas nem sempre conseguia demonstrar o que sabia fazer. Comecei a me sentir parte da cidade quando encontrei pessoas dispostas a me orientar, consegui trabalhar e passei a participar da comunidade. Mais tarde, também pude ajudar outras pessoas que estavam chegando.” Barbara, migrante da Venezuela
Chegar a um novo país representa apenas o início de uma trajetória. Depois da fronteira, do aeroporto ou da emissão dos primeiros documentos, surgem necessidades muito concretas: encontrar moradia, compreender o transporte público, matricular as crianças na escola, aprender português, procurar trabalho e construir novas relações.
Para recém-chegados (migrantes e refugiados), integrar-se não significa apenas estar legalmente autorizado a permanecer no Brasil. Significa poder exercer direitos, participar da comunidade, desenvolver autonomia e contribuir com conhecimentos, experiências e culturas.
O Boletim da Migração no Brasil — edição 24, produzido pelo Departamento de Migrações da Secretaria Nacional de Justiça, mostra a dimensão desse desafio. Com dados atualizados até 30 de abril de 2026, o documento registra mais de 2,2 milhões de registros migratórios ativos no país. O total reúne pessoas migrantes, refugiadas e solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado.
Os números ajudam a compreender a dimensão da mobilidade humana no Brasil. Porém, também levantam uma pergunta importante: o que acontece depois que uma pessoa chega?
Respostas diferentes para realidades diferentes
O Brasil desenvolveu estratégias distintas para responder aos deslocamentos internacionais.
Uma delas é o Programa Brasileiro de Patrocínio Comunitário para Afegãos. Nesse modelo, organizações e comunidades participam da preparação e do acompanhamento das pessoas que chegam ao país.
Até abril de 2026, o primeiro edital do programa havia oferecido 1.500 vagas e viabilizado a chegada de 539 pessoas afegãs. O levantamento mostra uma distribuição praticamente equilibrada entre homens e mulheres, além da presença de crianças, adultos e pessoas idosas. São Paulo aparece como o principal estado de destino entre os locais apresentados no boletim.
O patrocínio comunitário parte da compreensão de que a integração precisa ser construída no território. Isso envolve apoio inicial, orientação, acesso a serviços e aproximação com a comunidade local.
Outra resposta é a Operação Acolhida, criada diante do fluxo de pessoas venezuelanas pela fronteira norte do Brasil. Sua atuação envolve procedimentos de fronteira, estruturas temporárias e a interiorização voluntária para diferentes cidades brasileiras.
A série apresentada pelo boletim, iniciada em 2017, registra mais de 1,49 milhão de movimentos de entrada e mais de 703 mil movimentos de saída. O documento denomina a diferença entre esses registros de “balanço de movimentações”. Esses números representam movimentos de fronteira e não devem ser interpretados como quantidade definitiva de pessoas que permaneceram no país.
Somente nos quatro primeiros meses de 2026, foram contabilizados 59.871 movimentos de entrada. O dado mostra que a resposta ao deslocamento venezuelano continua exigindo articulação entre governo federal, estados, municípios e organizações sociais.
Ter documentos não significa estar integrado
A documentação é indispensável para a vida no Brasil. Ela permite acessar serviços, formalizar contratos, abrir contas, procurar trabalho e exercer diferentes direitos.
No contexto da resposta à população venezuelana, o boletim registra centenas de milhares de autorizações de residência e CPFs emitidos, além de solicitações de refúgio em tramitação e pessoas já reconhecidas como refugiadas.
Esses avanços são fundamentais, mas os documentos não resolvem sozinhos todos os desafios.
Uma pessoa pode estar regularizada e ainda enfrentar dificuldades para:
- encontrar moradia adequada;
- compreender os serviços públicos;
- conseguir emprego compatível com sua experiência;
- validar diplomas e formações;
- aprender um novo idioma;
- matricular os filhos;
- estabelecer relações de confiança;
- enfrentar situações de xenofobia ou discriminação.
Por isso, a documentação deve ser compreendida como uma porta de entrada para a integração, e não como a conclusão do processo.
A integração acontece nas cidades
Depois das ações realizadas na fronteira ou pelos órgãos federais, a vida cotidiana acontece nos municípios.
É na cidade que uma criança entra na escola, uma família procura atendimento de saúde, um profissional tenta retornar ao mercado de trabalho e uma pessoa começa a reconstruir seus vínculos comunitários.
Esse processo envolve diferentes atores.
As escolas precisam estar preparadas para receber estudantes com experiências linguísticas e culturais diversas. As empresas podem reconhecer competências profissionais e ampliar oportunidades de trabalho. As universidades podem contribuir com pesquisa, formação e extensão. As igrejas e organizações comunitárias podem promover convivência, orientação e construção de vínculos.
As organizações da sociedade civil também desempenham um papel importante na conexão entre as pessoas recém-chegadas e a rede de serviços. Sua atuação pode incluir orientação documental, formação profissional, ensino de português, mediação intercultural e articulação com instituições públicas e privadas.
No entanto, a integração não deve criar relações permanentes de dependência. O objetivo precisa ser o fortalecimento da autonomia e da participação das próprias pessoas migrantes e refugiadas nas decisões que afetam suas vidas.
Interiorizar é mais do que mudar de cidade
A interiorização contribui para diminuir a concentração das demandas nas regiões de fronteira e permite que pessoas venezuelanas recomecem suas trajetórias em outras partes do país.
Mas deslocar uma pessoa de um município para outro não garante, por si só, sua integração.
Para que a interiorização produza resultados duradouros, é necessário que a cidade de destino tenha condições de oferecer:
- acesso à moradia;
- oportunidades de trabalho;
- educação;
- saúde;
- proteção social;
- orientação sobre direitos;
- convivência comunitária;
- apoio para a aprendizagem do português.
Também é necessário ouvir as próprias pessoas interiorizadas. Seus projetos, competências, relações familiares e preferências precisam fazer parte das decisões.
A integração não deve ser feita apenas para elas, mas com elas.
Uma responsabilidade compartilhada
Os dados do boletim mostram que o Brasil possui estruturas importantes para receber, documentar e encaminhar pessoas em situação de deslocamento.
O desafio seguinte é transformar essas estruturas em oportunidades reais de participação.
Essa responsabilidade não pertence apenas ao governo federal. Estados, municípios, empresas, organizações sociais, igrejas, universidades e comunidades locais também participam desse processo.
Mais do que chegar a uma nova cidade, integrar-se significa encontrar condições para fazer parte dela: exercer direitos, assumir responsabilidades, construir vínculos e contribuir com conhecimentos, trabalho e experiências.
Queremos ouvir você
- O que uma cidade precisa oferecer para que uma pessoa recém-chegada consiga realmente se integrar?
- Qual deve ser o papel das empresas, igrejas, universidades e organizações sociais?
- Você considera que sua cidade está preparada para conviver com pessoas de diferentes culturas e nacionalidades?
- Que iniciativas poderiam aproximar moradores locais e recém-chegados?
- Além dos documentos, o que é indispensável para que uma pessoa se sinta parte de uma comunidade?
Compartilhe sua opinião nos comentários. Sua experiência e suas propostas podem contribuir para ampliar o debate sobre integração e convivência intercultural.




Comments (0)